Germinação

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformaram em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários ângulos com elevadas conformações
vários vértices com encaixes de grandes estruturações

aprofundamos sem anestesia
permitindo-nos sentir cada instante
difundindo lentamente
em uma complexidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e de mentes vazias

nossa troca de olhares se manifestou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formou fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
ultrapassávamos os limites para mergulhos recreacionais

molhamos as raízes ao toque do mar
secamos as folhas à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

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Natureza humana

A tendência humana
é o descarte em ritmo alarmante
relações insignificantes preenchidas de objetos obsoletos
enquanto a natureza liberta
como uma válvula de escape
para o contato com um ecossistema inconstante
envolvido por reflexos pulsantes de energia positiva

humanos utilizam
repelentes naturais providos de plantas medicinais
em paisagens esculpidas por erosões eólicas e hídricas
enquanto gases metanos de geleiras tendem a difundirem
junto à essência que os conectam à riqueza da terra
e à sua transformação
para a beleza além da imagem

e o tempo
antes carente de propósitos e ausente de conquistas
torna-se suprido de finalidades e
responsável por progressos
reservando a leveza de cada eternidade do instante

porém, imersos
no ciclo natural da vida
esquecem da insignificância da superfluidade
e tornam a refletir, tarde,
já em decomposição

Itinerário neoplatônico

Olhe a lua, meu bem
olhe como ela influencia as marés
tsunami sombria
encaixotando a reflexão
do brilho lunar
e desviando esse nosso comum
ponto de paz
da minha visão central
túrbida, perco-me
em redemoinhos versificados de
Ezra Pound, Envoi
naufrageio
na minha oceânica solitude

submersa e fria
encontro-me em solidificação
desprendida das
geleiras do nosso próprio
oceano ártico
vagando, só, iceberg
pela corrente marítima ao fluxo das águas
que me afastam
de você
hipotermia

apenas olhe a lua, meu bem
olhe como ela reflete
sua imagem verossímil:
traços e linhas da sua imperfeita
simetria facial, como coordenadas da minha
bússola vital
profundidade e posição do seu
calor corporal, como ponteiros do meu
astrolábio
que apontam
seu norte
seu sul
seu leste
nosso oeste
onde o amor ancora
em desatino
e me guia, como Ginsberg, construindo uma ponte
entre o Modernismo de Ezra e o Surrealismo francês
ao meu inefável
ponto de paz