Insubordinação poética

Acordei
disposta a expandir as fronteiras do
meu raciocínio ao longo do papel,
pois escrever conforme um molde é
uma limitação da capacidade
de se auto expressar

Enquanto Kafka tinha transtorno de
personalidade esquizóide,
produziu obras que
metamorfosearam minhas ideias
abriram, como chave, o cadeado
que Cézanne destruiu
na Arte Moderna

Inspirei o ar fechando os olhos,
mentalizei uma profundidade de imagem
em branco
em preto
onde nem Van Gogh aplicaria a
Teoria das Cores

Diante do imprevisível, busquei um centro
no meio do caos de pensamentos
por meio de palavras que
expressassem toda sinestesia
cada letra compunha
um ritmo
que seguia o fluxo da experimentação,
um ritornelo
para Deleuze

Minha procura por neologismos
era insaciável,
como uma máquina desejante
para psicanálise
um Anti-Édipo
nem Freud explicaria

Encostei o lápis sobre o papel,
desenhei a árvore que seria filogenética
para Darwin
com versos ricos de ironia Machadiana
e descontração sintática
Drummondiana
na tentativa de conceituar o grande
dogma da modernidade filosófica:
-O homem!

Com versos finais fartos de ontologia,
que discorriam
indignidade sobre a
vanguarda de Foucault
e saciavam
essa insubordinação mental
percorrida em minha mente
um dia
poematizada

Anúncios

Ausência

Saudade é um choro
hiperbólico
que suplica permanência
com um coração
aquecido de
lembranças inflamáveis,
combustão
de impetuosas angústias
insistentes em coabitarem
o corpo
progressivamente em
chamas

Potencial de Ação (PA)

O mundo extravasa julgamentos que não cessam
retornam em feedback positivo
círculo vicioso

enquanto as minorias se agregam
na busca por isonomia e por respeito
atuando como uma bomba de Na/K
em dispendioso transporte ativo,
dissipam suas energias em
protestos contra seu gradiente de concentração

a membrana que separa os extremismos vai
dissolvendo
despolarizando
com a entrada de íons sódio
com a saída de íons potássio

e, finalmente, percebemos que a moralidade é temporal
hiperpolariza
despolariza
repolariza

dependendo do estímulo da minoria
a célula-sociedade sai do repouso
e há
potencial de (transform)ação

Piegas

Quando você chega
seu cheiro entranha pelas minhas narinas,
envia sinais ao meu cérebro que interpreta e
me faz sentir com água na boca
desregula minha taxa metabólica
ocasiona taquicardia

seu toque estimula meus mecanorreceptores,
causa arrepio de todos os pêlos do corpo
inibe os nociceptores
analgesia todas as dores

seu abraço me acomoda em seu peito,
encosta nossos corações desprotegidos
de modo que sincroniza nossa batida cardíaca

seus olhos se fixam aos meus,
minha própria imagem reflete em sua retina
vejo-me dentro de ti

sua penugem facial massageia o meu rosto,
estimula a circulação sanguínea das veias que
saltam sobre minha pele sem melanina

feliz, sorrio
meu corpo está vivo
vivo de mim
vivo de você
vivo de nós

Dia de praia

Meus pés agasalhados pela areia
procuram uma sombra turva
um silêncio opaco
desarmado pela balbúrdia
da juventude feérica
brincando de mergulho com
o empuxo
das águas salgadas

Ouço a afetuosa sonoridade
quebra das ondas
que tropeçam
nos bancos de areia
molhando o seco e produzindo
sonância que propaga
dentro das conchas
emolduram os castelos de areia

no
Rio
40 graus

Pré-adolescentes substituem a fome
de carinhos com picolé gelado,
sede de beijinhos
com matte leão
sem gelo
me arrepio, con(gelo)
com a frieza dos corações
humanos que aguardam
o pôr do sol
com olhares imóveis
à espera da imagem
refletida na retina
chegando ao córtex primário
liberando neurotransmissores
que propiciam
euforia

Enquanto a brisa marítima
percorre, entre seus rostos, carregando
sorrisos, suspiros, olhares
guiando a noite
e compelindo o
pôr do sol
enaltecendo o mar

Workaholic

Lucas é só mais um Severino
que fez do trabalho
um empecilho para viver

em uníssono:
não somos só
mão de obra

Mas quem precisa socializar
quando a globalização
dos meios de comunicação
possibilita a antítese
aproximação-afastamento de
contato físico!

Quando o honorário excede
e permite um delivery de
comida japonesa,
essa apreciada com a companhia do
eu lírico!

Quando fabulizam amantes
eletrônicos
programados
câmbio!

Quando as ruas deixam de ser
selva de pedras
e se tornam
selva de perdas
assalto!

Quando o que se almeja é
adormecer
a fim de despertar
e deliberar sobre o
trabalho!

Mas quem carece
de vida social? -indagou Lucas
pois hoje os Severinos, pseudônimo Lucas,
não compartilham
palavras e energia
em quaisquer situações
monologam com as paredes
do escritório
sobre niilismo positivo
cuja resposta um vazio
eco.

Lucas tem um pélago
de amor para doar,
mas veste uma armadura
que impede o fluxo:
de sentimentos
quem precisa?

Ah, seres racionais, precisamos socializar

em uníssono:
não somos só
solidão

Ações e estações

Surge a
Primavera
desabrochando as gimnospermas que
evoluíram com sublime robustez
dando origem às
angiospermas
germinadas e
detentoras de fruto,
o qual,
no Verão,
foi extraído para atender
a demanda dos mercados
afervorados pelo
lucro corporativista,
no Outono,
acentuando-se após
a Guerra Fria,
no Inverno.
Foi-se o tempo de Primavera

Passarinhez

Passarinhando por aí
encontrei entre árvores
muitos ninhos,
mas nenhum do gênero
Euphonia Violacea

Logo me vi atônica
ao sentir seu afago
assoprando, como vento, meu caminho
pedindo-me pra pousar

E, só arremeti vôo
quando o furdunço de desamor
invadiu
suas emoções, suas plumas
impedindo-me de ficar

Dado que distante
de seu alento desaprendi a gorjear,
assobiei
na audácia tentativa de avocar quem eu
jamais devia ter abandonado sem
carinho.

E juntos, vo(amo)s