Abraço

Cicatrização de ferida que doía
enquanto sangrava sem estancamento
cessamento de hemorragia que acidificava
corroendo lentamente, como óxido nítrico,
tornando-se capaz de preencher
meu corpo
com bombeamento sanguíneo
que agora pulsa no ritmo da tua
frequência cardíaca

Germinação

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

Natureza humana

A tendência humana
é o descarte em ritmo alarmante
relações insignificantes preenchidas de objetos obsoletos
enquanto a natureza liberta
como uma válvula de escape
para o contato com um ecossistema inconstante
envolvido por reflexos pulsantes de energia positiva

humanos utilizam
repelentes naturais providos de plantas medicinais
em paisagens esculpidas por erosões eólicas e hídricas
enquanto gases metanos de geleiras tendem a difundirem
junto à essência que os conectam à riqueza da terra
e à sua transformação
para a beleza além da imagem

e o tempo
antes carente de propósitos e ausente de conquistas
torna-se suprido de finalidades e
responsável por progressos
reservando a leveza de cada eternidade do instante

porém, imersos
no ciclo natural da vida
esquecem da insignificância da superfluidade
e tornam a refletir, tarde,
já em decomposição

Ventania

Invadiu-me preenchendo intensamente
cada espaço corporal
transbordando lentamente suspiros
que suplicavam sonância vocal
umidificando esporadicamente meus lábios
sem pedir licença.

sua alta intensidade sentimental
foi transparecida
sem submissão à ardente hipnose
da atual modernidade líquida
permitindo-nos sentir cada instante
difundindo lentamente
suprimindo comportamentos fúteis
e reconciliando nossos corações consistentes
em meio às
ventanias emocionais

acalentou-me com olhares calorosos
enquanto os dias dançavam
silenciosamente pela imensidão
e as noites construíam
labirintos sem finais
pedindo demasia afetiva.

Metafísica

Somos uma raridade pensante
constantemente em rotação
diante da vastidão cósmica

cordas vibram em diferentes padrões
gravitando e unificando-se em uma única teoria
unindo a Teoria da relatividade com
a Teoria Quântica de Einstein
enquanto divulgações científicas de Carl Sagan
permitem a vulgarização científica
implementando uma reflexão despretensiosa
de tudo e de todos

somos uma galáxia que cria e cuida de ideias
com forças que pluralizam curvas geodésicas
conectando uns aos outros via wi-fi

mercúrio-vênus-terra-marte

a internet é o novo big bang,
uma enorme explosão continuamente em expansão
e nossos sentimentos um buraco negro,
onde o tempo para e o espaço deixa de existir
possuindo singularidade gravitacional

24 horas e 365 dias
abandonamos o geocentrismo
enquanto o egocentrismo se torna infindável
e nossas concepções de universo modificam com
a transição do tempo
personificado em Chronos,
sem que nossas hipocrisias e nossos egoísmos
amores-próprios-Rousseaunos
desintegrem dentro de nós mesmos

estamos cheios de mentes vazias fazendo sinapses
sem repulsa à crueldade humana,
confluindo em direção à irracionalidade
afirmando-nos primatas com nossos instintos animais
abominando a razão e a ética em declínio
do bom convívio

somos uma raridade pensante
constantemente em rotação
diante da vastidão cósmica

Catarse visceral

Na sola dos teus pés
encontro-me
pisoteada
dizimando as afeições
putrificando as saídas da máquina desejante
conspurcando os sonhos
infeccionando as feridas
que deixaste invadirem meus tecidos corporais
em processo de supuração,
ao passo que parasitas
multiplicaram por divisão binária
destruindo minhas hemácias
que um dia te transportaram, meu oxigênio
Hoje, corpo sem órgão
sem amor

no céu da tua boca
encontro-me
bucólica
versificando a vida
hipersensibilizando o riso
entorpecendo os estorvos
homogeneizando o tempo
até alcançar resiliência
e transbordar estonteantemente afeto
capaz de transmiti-lo a ti no vácuo,
como uma impetuosa
onda eletromagnética oscilando em fases,
enquanto regurgito
minha ilha de sentimentos
decorrente do
pequeno sequestro de vitalidade social,
e a transformo em arquipélago
para vivermos intensamente
o compartilhamento
de energia vital
Amanhã, com amor

Desarmonia vital

O medo nos faz ouvir cada segundo
desafinado
em doce consonância
como ‘um samba de uma nota só’
cuja Bossa Nova degustara
de Tom Jobim

possibilita-nos identificar a melodia de
vocais assustados
que atingem uma escala de tenor
um Freddie Mercury cantando em
escala soprano
dando voz interior aos órgãos
em alerta

cada percepção atípica no nervo auditivo é
influenciada tumultuosamente conforme um
Rock Progressivo Instrumental
ou um Blues difícil de tocar,
mas fácil de sentir, para Jimi Hendrix,
nos quais ruídos soam em simultânea
harmonia
convergindo em desespero
suprimindo nosso autocontrole
em breve inconsonância

como consequência,
nossa falta de reação aparenta
um drama musical encenado,
uma ópera de Vivaldi
reinaugurando com orquestra
de cenografia policial em meio a
vestuários medievais e
atuações saturadas de
fadiga existencial

o acorde final é um efêmero
susto rasteiro
que condensa em neblina
cada movimento sem prudência
fazendo perder o ritmo de um
padrão sonoro
impedindo-nos finalizar
qualquer ação
desarmonia

Criptografia

Decifra-me
no excesso de lirismo,
em versos
na escassez de verborragia,
em libras
na ausência de luz,
em braile
com o coração salgado
imerso em hipertensão,
forçando intensamente impulso
sanguíneo por todo
o corpo
cuja expansão de
desejo
danifica artérias
que sofrem constrição
por hiperaldosteronismo
enquanto descriptografa a leitura
da química sentimental,
como enxofre e mercúrio
em ativa corrosão com
volatilidade inerte

Itinerário neoplatônico

Olhe a lua, meu bem
olhe como ela influencia as marés
tsunami sombria
encaixotando a reflexão
do brilho lunar
e desviando esse nosso comum
ponto de paz
da minha visão central
túrbida, perco-me
em redemoinhos versificados de
Ezra Pound, Envoi
naufrageio
na minha oceânica solitude

submersa e fria
encontro-me em solidificação
desprendida das
geleiras do nosso próprio
oceano ártico
vagando, só, iceberg
pela corrente marítima ao fluxo das águas
que me afastam
de você
hipotermia

apenas olhe a lua, meu bem
olhe como ela reflete
sua imagem verossímil:
traços e linhas da sua imperfeita
simetria facial, como coordenadas da minha
bússola vital
profundidade e posição do seu
calor corporal, como ponteiros do meu
astrolábio
que apontam
seu norte
seu sul
seu leste
nosso oeste
onde o amor ancora
em desatino
e me guia, como Ginsberg, construindo uma ponte
entre o Modernismo de Ezra e o Surrealismo francês
ao meu inefável
ponto de paz

Insubordinação poética

Acordei
disposta a expandir as fronteiras do
meu raciocínio ao longo do papel,
pois escrever conforme um molde é
uma limitação da capacidade
de se auto expressar

Enquanto Kafka tinha transtorno de
personalidade esquizóide,
produziu obras que
metamorfosearam minhas ideias
abriram, como chave, o cadeado
que Cézanne destruiu
na Arte Moderna

Inspirei o ar fechando os olhos,
mentalizei uma profundidade de imagem
em branco
em preto
onde nem Van Gogh aplicaria a
Teoria das Cores

Diante do imprevisível, busquei um centro
no meio do caos de pensamentos
por meio de palavras que
expressassem toda sinestesia
cada letra compunha
um ritmo
que seguia o fluxo da experimentação,
um ritornelo
para Deleuze

Minha procura por neologismos
era insaciável,
como uma máquina desejante
para psicanálise
um Anti-Édipo
nem Freud explicaria

Encostei o lápis sobre o papel,
desenhei a árvore que seria filogenética
para Darwin
com versos ricos de ironia Machadiana
e descontração sintática
Drummondiana
na tentativa de conceituar o grande
dogma da modernidade filosófica:
-O homem!

Com versos finais fartos de ontologia,
que discorriam
indignidade sobre a
vanguarda de Foucault
e saciavam
essa insubordinação mental
percorrida em minha mente
um dia
poematizada